Sobre ser Taurina e Animais Fantásticos e Onde Habitam

Vou tentar não me alongar demais. Não vai ser fácil, mas vou tentar com determinação. E não me culpem por isso. São muitos sentimentos misturados e eu vou explica-los da forma menos atrapalhada possível – porque eu tendo a ser prolixa e confusa quando vou falar sobre coisas que eu gosto demais.

Uma amiga minha me disse que isso é fruto do meu mapa astral. Algo relacionado com sol em Touro e Ascendente em Libra que me faz ser assim. Tudo que eu amo, eu amo muito. Tudo que eu odeio, eu odeio demais. Não gosto de pôr ponto final em defeitos, pois acredito que somos seres evolutivos (apesar de eu também curtir ler meu mapa astral de vez em quando). Mas, está sendo bem difícil evoluir neste aspecto. Então, eu só aceito e sigo em frente.



Desviei do caminho. Voltando...

Apenas uma pessoa que não teve nenhum contato comigo ou sequer uma conversa rápida não sabe que eu sou fã de Harry Potter. Porque mesmo que o indivíduo não tenha me perguntado diretamente alguma coisa que me leve a falar de livros e/ou paixões que eu cultivo, eu tenho tatuado no corpo um raio e um símbolo estranho (que é o símbolo das Relíquias da Morte). Além disso, eu faço questão de mencionar nem que seja uma metáfora potteriana no meio da conversa então, querendo ou não, qualquer um que tenha tido contato comigo sabe que eu sou fã, ou melhor, potterhead.

Mas, talvez, eu seja um pouco diferente. Ao contrário de muitos, eu nunca me senti “órfã” desse mundo quando ele terminou. (Pra você, pessoa que eu provavelmente não gosto porque não sabe bulhufas de HP, o ciclo se encerrou em 2007 com o lançamento do último filme da série). Não foi preciso que JK Rowling dissesse na última première do último filme que “Hogwarts will always be there for you”. Eu entoei “aaaaw” quando ela disse também. Mas não foi preciso que ela dissesse isso pra mim. Eu já sabia. O universo inteiro que ela criou sempre esteve comigo.



Quando eu via uma criança excluída de uma turma na rua eu a relacionava imediatamente a Harry pré-Hogwarts – ou Luna, porque não? Todas as vezes que as pessoas condenavam um pitbull por outro ataque “aterrorizante” em uma pessoa nos Estados Unidos eu me lembrava dos dragões e do que Hagrid sempre disse: criaturas incompreendidas. Sempre que eu via discriminação, atos de bravura, atos de covardia, falsa democracia, megalomania, humildade... acho que todos os valores e características humanas, quando expostas de forma contundente, eu relacionava – ou melhor, relaciono – a algum personagem, criatura ou situação da série.

Então, acho que foi essa absorção quase que completa das mensagens da série nos meus valores e no meu desenvolvimento psicológico que faz com que eu não sinta falta nenhuma de Harry Potter.

Nenhuma mesmo. Porque ele nunca foi embora. E acho difícil que um dia vá.

A história de JK Rowling tem mais significado na minha vida que muitos dos ensinamentos da minha família. Tem mais impacto em mim do que qualquer amigo. Vocês percebem o quanto isso é bizarro – e ao mesmo tempo assustador? É uma história. Fictícia. Não existe.

Porém, eu acho que a única coisa de que me deixa sã durante todo esse processo é que, pelo menos, eu não acho que bruxaria existe e, por isso, vou começar a fazer poções no meu quarto para ver se funciona. Essa parte eu sei que é improvável – para não dizer impossível. O que eu absorvo e ponho em prática são os ensinamentos mesmo. Como eu já disse, os valores, as ideias, as virtudes e defeitos. Até aí, tudo bem, né.

Engraçado que até isso ela meio que “preconiza” na série.  Uma personagem diz pro outra que aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade. Eles vivem dentro da gente. Clichê ou brega como é, é a mais pura verdade. Como eu disse, não sou órfã de nada. Nunca foi embora.



Por isso, este ano, eu não embarquei no mesmo discurso dos outros de que “estaríamos de volta ao mundo mágico”. Que volta? Vocês foram embora quando?

“Ah, Maluh, mas você tá sendo muito literal... é uma forma de dizer”.

Dane-se. Quando se trata de algo que eu realmente amo, não tem figura de linguagem. Eu escracho mesmo e tudo eu levo a sério, ao pé da letra. Blame it on the mapa astral, se for necessário.

(Parênteses aqui. Apesar das pessoas alegarem que é apenas uma “forma de dizer” não acho que seja o caso. Elas realmente precisavam de algo as alimentando o tempo todo para que elas se sentissem incluídas naquilo. A maioria das pessoas é assim. Não aguentam relacionamentos a distância porque precisam do toque físico. Se sentem abandonadas se não virem os amigos todo fim de semana. Sentem que uma história acabou se não tiverem uma nova por ano. Eu nunca fui assim. Astrologicamente ou não, todo mundo que eu já amei, ainda amo. Nunca esqueci, nunca foram embora de mim. Pergunta pra quem me conhece...).

Por isso, quando fui assistir “Animais Fantásticos e Onde Habitam” não fui com nenhuma expectativa. Não estava órfã. Não precisava de mais nada. Não tinha necessidade de me alimentar de algo que eu nunca parei de consumir. Tava bem tranquila, na verdade. Aliás, se eu estava sentindo algo era receio.

(Outro parênteses: esse ano foi decepcionante para mim. Eu não consegui manter minha dieta, cometi um erro pintando meu cabelo, Cursed Child foi uma porcaria e Joanne não é o melhor álbum do ano. Fecha parênteses).

Então, juntando tudo isso acima, eu estava era com medo que algo fosse “cagar” o que já tinha sido deliberadamente pisado em cima como a – falsa – oitava história que não teve NADA que pudesse fazer a gente se identificar com o universo criado por Rowling. Só alguns nomes que conhecíamos mas, a alma deles não estava lá...

Fui assistir Animais Fantásticos com os dois pés atrás e uma leve empolgação. Consegui passar todos esses meses sem assistir nenhum trailer, mas isso é porque Hollywood está estragando todas suas produções exibindo praticamente uma versão de dois minutos dos longas antes que de realmente lança-los. Não foi porque eu estava excitada e queria reservar tudo para a hora certa.

Pois bem. Pulemos a parte que eu assisti o filme, fui para pré-estreia, fui novamente um dia depois porque um amigo me chamou – e cá pra nós, ainda não enjoei o suficiente para negar um convite caso alguém me chame para assistir junto – e cá estou eu. Completamente apaixonada por JK Rowling novamente.


Não porque eu estou de volta. Aquele mundo ainda está aqui. Aquela história – seus ensinamentos, suas personagens, seus valores – ainda moram em mim e não sinto falta deles porque os visito todos os dias.

Mas, sim, porque fui apresentada para novas ideias, novas personagens, nova história, tão apaixonantes quanto as que eu curti há 16 anos atrás.

E da mesma forma envolvente, elegante, sutil e gostosa que só essa autora sabe fazer.

A situação agora é um pouco mais desesperadora, de fato. Antes, se eu quisesse sentir aquele gostinho da primeira vez novamente, era só correr para a prateleira, folhear o livro e tudo estava lá para me receber. Dessa vez, são filmes. De duas horas de duração. E por enquanto só tem o primeiro. O segundo vai demorar, no mínimo, um ano para ser lançado. Meu Deus, como isso é angustiante.

“Exagero, Maluh...”

Preciso te explicar meu mapa astral novamente?

Tá, mas prossigamos no porquê de eu ter achado tudo tão fantástico.

Comecemos no que, para mim, é o que mais prende uma pessoa a uma história: as personagens.
Oh, boy... as personagens dessa história. Como explicar?

São personagens típicas da escrita de Rowling. Profundos demais para podermos decifrá-los completamente em um filme (ou um livro). Porém, cativantes o suficiente para ficarmos intrigados e levemente seduzidos por suas respectivas histórias.

São personagens bem definidos no papel que irão desenvolver, porém, com bastante espaço para se desviarem se for necessário. Todos deixam uma pulga atrás da orelha do tipo “será que ele/a é assim mesmo ou...?”. Coisas que a gente sabe que vai precisar de mais páginas ou mais horas para entender completamente. Mas, ao mesmo tempo, naquelas poucas páginas (ou horas) já te deixam especulando, simpatizando, questionando, rindo, chorando...

Essas são as personagens de JK Rowling.

Nesta história em específico nós teremos um alívio cômico muito simpático e verdadeiro, esteticamente fora do padrão mas que te faz esquecer disso em duas cenas depois que ele vai se mostrando o cara mais legal que você respeita.



Depois temos uma badass girl que não vai te remeter a Hermione porque ela não é um crânio mal compreendido, mas, sim, se identificar com ela porque, por mais genial que ela seja, ainda comete erros e vacila algumas vezes. Totalmente relacionável com a mulher moderna.


Temos, também, uma Marilyn Monroe mode, linda, pura, meio Luna Lovegood, mas que se difere por ser um pouco mais pé no chão. Ela foi minha favorita, digo logo. Talvez essa relação com Marilyn Monroe tenha me pego de jeito. E também pelo fato dela ter se apaixonado pelo personagem mais improvável porque ela consegue ler sua mente e ver o quão interessante ele é além das aparências.



Para completar o grupo, temos o protagonista: introspectivo, inteligente e que protege animais (precisa de mais?).

Quero acrescentar mais um porque até o dublê do coadjuvante desse filme é legal. Esse não chega a ser tão distante mas é super válido de ressaltar: um garoto órfão (eita) que sofre bullying por ser esquisito demais e, que você sente desde o início, tem muito mais sobre ele do que se pode ver.



Próximo.

Segundo tópico: cenário.

A década de 20 já é algo tão lúdico que chega a ser fictício para a era Black Mirror na qual estamos nos enveredando. Acrescente aí um universo mágico-fictício com criaturas que se encaixam perfeitamente no cenário, sem causar discrepância ou contradição (exemplo: não são pokemons correndo pela cidade de Nova Iorque em 1926. São criaturas mais para mitológicas se inserindo num contexto humano. É muito legal).

Adicionando-se a estes fatores, temos os costumes norte-americanos, o ambiente de Nova Iorque – tão diferente da Londres que estávamos acostumados – vestimentas de época e cortes de cabelo vintage. Tudo de muito bom gosto e muito bem desenvolvido pela equipe de produção e maquiagem.


Terceiro tópico: a trama.

Paralelo a tudo isso, que já é bem bacana, vem a segunda coisa mais importante na minha opinião: a trama que vai se desenrolar. O jeito que JK mesclou a história no-maj (assista o filme para entender) com a história dos seus bruxos sempre foi maravilhoso. Tem muita criatividade envolvida. E agora, ela inventa os Segundos Salemianos que, supostamente, fazem parte de uma organização que basicamente quer reviver a época de “Salém”, condenando as bruxas à morte.

Porém, vale frisar, os bruxos são desconhecidos da sociedade no-maj já que fizeram questão de se colocarem na clandestinidade depois da primeira perseguição que sofreram justamente na época tão aclamada pelos Salemianos. Aliás, os próprios continuam tentando convencer a sociedade de que bruxos e bruxas ainda existem e precisam ser exterminados. Daí a organização e daí uma das ramificações da trama de Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Isso já é muuuito bacana, mas a gente pode acrescentar mais, não pode?

Pode!

No meio desses Salemianos tem um bruxo reprimido. Tinha que ter, não é mesmo? Tipo o bode expiatório da raça tão desprezada pelos no-majs recalcados. Ele supostamente tem “informações” que interessam a um integrante da MACUSA – Magical Congress of The United States of America. O Congresso funciona de maneira semelhante ao congresso norte-americano trouxa, da mesma forma que o Ministério da Magia atua igual ao Ministério inglês na Inglaterra. Aff, muito genial.



Como cereja do bolo, nós temos um zoólogo inglês que desembarca em Nova Iorque com uma maleta cheia das criaturas que ele estuda. Ele vai para os EUA devolver o que poderia ser considerado um bicho perigoso para o Congresso bruxo de volta para o Arizona, o habitat natural da criatura. Mas, a MACUSA não pode saber disso porque criaturas estão proibidas nos Estados Unidos, pois elas podem expor o mundo bruxo desencadeando uma guerra com os no-majs, provocando mais uma era de perseguição que seria tudo o que os Segundos Salemianos tanto desejam.



Acompanhou?

Porém, como nem toda alegoria é pouca para Rowling desenvolver uma história brilhante, ela insere, muito sutilmente, o que vai se revelar o verdadeiro fio da meada da trama: tem um bruxo a solta tocando o terror no mundo bruxo e trouxa (ou no-majs se preferir).

Já ouvimos essa história antes, não? Não! Porque esse bruxo aparentemente é um pouco diferente de Voldemort por suas coligações...

De forma sutil, como eu disse a um parágrafo atrás, ela vai inserindo novas informações que você sente, ou melhor, sabe que vão desencadear algo muito maior. Por isso, aviso logo aos apressadinhos de plantão: saboreiem o filme. Até porque, pra entender tudo depois, vocês vão precisar sacar tudinho que está acontecendo agora. Recado de fã.

Eu acho que eu consegui explicar mais ou menos porque eu estou totalmente obcecada por Animais Fantásticos e Onde Habitam, não?

A história não me trouxe de volta. Ela não preencheu um vazio. Ela me transbordou. (Eu acho que eu falei o pior clichê que já se poderia esperar, mas, como eu disse, não espere sanidade de mim quando falo das coisas que eu realmente gosto).

Ela trouxe mais pra mim. Mais para se pensar, mais para se considerar, mais para descobrir. Sinto que são novas personagens e novas situações que vão me trazer outras lições. É como se uma outra porta se tivesse aberto e eu pudesse entrar lá, sem medo, por estar sendo conduzida pela melhor mão que existe: a dessa inglesa mutante cheia de poderes mágicos para escrever histórias.

Por isso, digo e repito: eu não estou de volta. Eu cheguei agora. E estou amando. 


PS: Caso não tenha ficado claro – ainda – Animais Fantásticos e Onde Habitam foi escrito por JK Rowling como seu primeiro script. O livro que tem o mesmo título não tem nada a ver com a história desse filme. Já foi confirmado que serão mais quatro filmes, totalizando cinco dessa série. A ansiedade, sim, foi a que voltou.

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