Gaga decepcionou a democracia

No segundo semestre de 2016, eu resolvi postar na página da atriz Julia Louis-Dreyfus um comentário apoiando o seu posicionamento político contra Trump e a favor de Hillary. Minha surpresa foi quando abri a parte dos comentários e vi a enxurrada de opiniões que, além de serem pró-Trump, eram contra a Dreyfus. Os norte-americanos presentes na página (grande maioria) comentavam coisas do tipo: “você é uma entertainer, não pode emitir opiniões!”, “limite-se a nos entreter, deixe a política de lado!” e até “cala a boca, sua vadia adoradora de comunistas”.

Dos comentários mais leves aos mais ignorantes, o povo norte-americano me chocou mais uma vez: para eles, aparentemente, fazer parte do show business e emitir opiniões políticas eram dois opostos totalmente diferentes. Como se o fato de você ter espaço na mídia te proibisse de se expor nela – porque aí seria uma influência muito grande, não acha?

Vamos deixar de lado o fato de que eles não querem celebridades emitindo opiniões sobre política e, ainda assim, elegeram uma celebridade americana para ser presidente (se você não sabe, Donald não tem experiência alguma com política. Ele é o Roberto Justus dos EUA – na verdade é o contrário). Hipocrisias à parte, é impressionante como a noção de ‘democracia’ ainda não penetra na mente de muitas pessoas.

Que eu saiba emitir opinião política não se restringe em classe social, cor, idade e muito menos por status. E não pense que a tal ‘democracia’ é amada 24 horas. Taí um dos maiores deslizes dela: eleger um presidente que não tem capacidade nenhuma de governar um país de forma inteligente e democrática. É a democracia dando tiro no próprio pé. Isso acontece com uma frequência assustadora esses dias...

Porém, depois de dar essa volta por trás do Augusto Franco para chegar no São José, vamos ao ponto. Eu nunca me importei muito com as opiniões de pessoas ignorantes sobre assuntos políticos. É apenas ignorância, falta de conhecimento e sensibilidade, talvez um pouco de burrice também, quem sabe. Nunca me atingiu. Mas, como costumo acompanhar bastante o mundo das tais “celebridades” e admiro muito o trabalho de algumas delas e o poder que elas possuem de fazer com que mentes mais fechadas se abram (e vice-versa) justamente por causa da adorada e controversa democracia, eu tive que entortar meu nariz para essas afirmações.

Alguns meses depois da minha indignação, a qual obtive alguns respiros com as opiniões e a pressão da mídia Hollywoodiana em períodos de pré e pós eleição (vide Meryl Streep no Globo de Ouro), tive que prender minha respiração novamente e ficar sufocada pelas mãos de quem menos esperei ao longo desses anos:

Porquê, Gaga? Sério. Porquê?

Porquê não ser mais incisiva? Mais crítica? Mais aberta? Você está com medo? Não, não pode estar. Você sempre foi muito corajosa. Você está desiludida? Não, sua força nunca acaba. Você estava com preguiça? Humpf, pelo amor de Deus, claro que não.

E o que foi?

Pressão policial? Fuck that, eu sei que você é maior que isso. Medo de não agradar todo mundo? Não, senão não estaríamos falando da mesma Gaga.

O que diabos aconteceu no Super Bowl LI, então?



Tenho certeza que muitos fãs estão felizes com a apresentação. Eu também fiquei, porque, mais uma vez, você mostrou seu talento e pôde impressionar àqueles que ainda não sabiam das suas habilidades como cantora, dançarina e performer em geral. Mesmo que seja difícil de acreditar, sei que ainda tem muita gente que duvida das suas capacidades e, por isso, há um certo prazer em vê-la espantando haters como quem espanta mosca da sopa.

Porém, toda a performance não me atingiu. E eu acho que também não atingiu quem anda sofrendo com as consequências do que vem acontecendo no mundo e nos Estados Unidos da América. Eu não estou lá, porém, consigo me compadecer e me preocupar porque sei que hoje em dia nenhum sofrimento é individual. De uma forma ou de outra isso nos atinge também. É a maldição da globalização que une os indivíduos até mesmo no calvário.

Por isso mesmo que fiquei decepcionada. Não decepcionada com a sua performance diretamente. Mas, sim, com a sua escolha pela crítica apagada, pela exposição moderada e pela opinião ofuscada que você apresentou. Você tinha a maior audiência dos EUA e uma grande parte do mundo olhando para você naquele momento. Pessoas que não param para assistir seus discursos em shows, parques ou até protestos de rua (porque sei que você já esteve em todos esses lugares). Não. Aquele era o momento de você falar com os cervejeiros do Texas e com as mães conservadoras de todos os lugares da América.

Era o momento em que os bullies iam ver o jogão com o pai no bar e iam te ouvir. Era o momento em que a nação inteira teria olhos e ouvidos para o que você ia dizer. Era o maior momento em que pessoas diferentes, de estilos diferentes e de opiniões diferentes iriam ser obrigados a te enxergar como a estrela que você sempre foi: uma estrela opinativa, contundente, inconveniente para os conservadores, carismática e revolucionária. Era o momento no qual muitos queriam ter, mas não tiveram.

Você cumpriu exatamente, ao longo dos 13 minutos, o que aqueles haters na página da Julia Louis-Dreyfus comentaram: apenas... divertiu. Foi uma entertainer de mão cheia. Porém, sem um pingo de voz sobre nada que está ocorrendo no momento. E, sim, o início da apresentação foi promissora, com sua voz espetacular, em cima do estádio, cantando hinos de patriotismo a plenos pulmões. Pensei “agora vai”. Não foi. Foi uma enxurrada de hits maravilhosos. Mas o protesto ficou nas entrelinhas das músicas que, para os Trump supporters de plantão, foi lindo porque eles enxergam aquela música como querem enxergar: “é mesmo, nossa terra é linda, está tudo maravilhoso, não é mesmo?”.

E poder ler os comentários agora, nas redes sociais internacionais, onde os mesmos supporters vibram com sua apresentação me dá embrulhos no estômago. Eles estão felizes que você não abriu a boca pra nada.

Antes que me chamem de exagerada só porque uma cantora não fez protesto num imenso evento da maior potência econômica do mundo que quer fechar portas para tudo e todos, pensa direitinho. São pequenos passos de muitas pessoas que se faz uma grande caminhada. Pressão se transforma em revolução que vira transformação. Não podemos deixar de acreditar nisso e, no momento em que vivemos, onde o ódio e o preconceito só ganham batalhas atrás de batalhas, qualquer soldado que dá um passo para trás na linha de frente já é motivo de luto.

Tenho medo que a atitude da Gaga seja expandida para outras pessoas que têm o poder da mídia nas mãos. Estaríamos perdendo um grande aliado da democracia (muitas vezes falha, porém, necessária).

Acreditem, está sendo um tormento sem fim escrever isso. Na verdade, está sendo muito doloroso ser fã da Lady Gaga neste momento. Porque decepções acontecem a cada instante. Mas, é agora que eu preciso falar para pôr para fora e dar espaço a uma admiração que sempre senti pela artista. Ser fã de verdade nunca foi fácil. Eu estou aqui para aplaudir sempre, mas não posso fechar os olhos cegamente ao que eu não acho correto. E eu não sei vocês, mas isso me faz sentir cada vez mais perto de quem eu acredito.

Sobre você, Gaga, espero escrever textos com tanto entusiasmo quanto esse, porém, mais eufóricos e satisfeitos do que estou agora. Super Bowl não vai acontecer de novo, mas surpreender é sua especialidade, por isso, por favor, nas próximas vezes e sempre que tiver chance: surpreenda-nos.  

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