Como aceitar sua atração por "mulheres gordas"

Essa é para todos os caras que me disseram "Eu não tenho atração por mina gorda" mesmo fazendo sexo comigo - e eu sou gorda. 


A autora - Alison Stevenson


Eu não tenho vergonha do meu corpo grande. Para mim, se você não aguenta minhas estrias, então você não merece minha celulite. Mas, eu não era assim. Eu costumava ser a garota que insistia em transar com as luzes apagadas. Eu me cobria toda vez que saía da cama. Eu nunca quis ficar em cima durante o sexo com medo de como minha barriga ia parecer daquele ângulo. Deus, eu sinto tanta pena dessa minha antiga versão.

Minha confiança melhorou no dia que eu me liguei de que a minha gordura não era algo que eu podia esconder, então porque tentar fazer isso? Eu nunca transei com a impressão que meus parceiros não sabiam no que estavam se metendo, como se nosso tempo todo juntos antes de nos despirmos foi passado com a gente olhando um para a cara do outro. Ainda mais, a maioria dos homens que eu durmo me dizem que gostam do meu corpo. Eles vão dizer qualquer coisa tipo “Eu amo mulheres com curvas”, ou “Eu curto mulheres mais cheias”. Eu sempre encarei esses comentários como se eles estivessem tentando me fazer um favor – tipo, eu vou chama-la de cheinha, não gorda. Mas, eu não vejo gorda como uma palavra ruim e também não vejo motivo para evitar dizê-la.

Eu comentei isso com um cara recentemente depois que me chamou de “cheinha” na cama. “Só me chame de gorda”, eu disse pra ele. “Eu não ligo – é o que eu sou”.

A resposta dele me pegou de surpresa. “Acredite em mim, você não é gorda. Eu não sinto atração por garotas gordas”.

Foi quando eu percebi: Oh, você não está falando isso pra mim. Você está falando isso pra você mesmo. Aquele cara, e provavelmente uma porrada de outros caras, não queria aceitar a atração dele por uma mulher gorda.

Eu entendo. Não são só as mulheres que são criadas para acreditar que só existe um tipo de corpo que pode ser considerado “gostoso”. Gostar abertamente de um tipo de corpo que escapa da norma socialmente construída traz vergonha. Até aqueles que não têm vergonha dos seus desejos, às vezes, têm a necessidade de ser mais “misterioso” com o assunto.  Na área dos héteros, o estudioso sobre gêneros, Hugo Schwyzer, afirma que homens são ensinados a achar “gostosa” aquelas que os outros homens também acham ser “gostosa”.

Basicamente, a atração heterossexual funciona num nível social e as mulheres estão construindo blocos para a autoestima dos seus parceiros masculinos. Mulheres gordas são vistas como “sem valor”, o que força muitos homens heterossexuais a negar que eles se sentem atraídos por elas.

Isso, é claro, não se aplica a todos os caras heterossexuais. Existem comunidades de homens conhecidos por “admiradores das gordas”. Em 2011, um perfil ganhou destaque do Village Voice, do Dan Weiss, um declarado admirador de gordas e criador do “Pergunte a um cara que curte garotas gordas”. Nesse perfil, Weiss desmascara os mitos do porquê que um homem prefere uma mulher gorda: não é porque as gordas são mais fáceis de levar pra cama, e não é verdade que homens que saem com mulheres gordas devem ter auto estima baixa. O fato de que estas são crenças comuns já dizem alguma coisa sobre como as minas gordas são vistas no contexto sexual.

A autora e ativista gorda Virgie Tovar traz outra concepção errada: “Homens que desejam mulheres gordas são considerados depravados sexuais ou pervertidos porque mulheres gordas não se conformam com os ideais de beleza ocidentais populares”, ela me disse. “A verdade é que o desejo humano – e, sim, desejo masculino – varia imensamente e, se nós vivêssemos num mundo menos julgador, nós veríamos como nossos apetites são diversos. Infelizmente, nós não vivemos nesse tipo de mundo. No Ocidente, é a magreza”.

Talvez fosse diferente se as mulheres gordas fossem representadas de forma diferente na mídia mainstream. Hollywood poderia fazer melhor do que escolher a Melissa McCarthy em alguns pouco engraçados, porém, totalmente ‘dessexualizados’ papéis. Na indústria da música, nós raramente ouvimos sobre mulheres grandes, a não ser em trechos como os de Drake nos versos de “Only”, da Nicki Minaj, onde Drake diz que ele curte BBW (big, beautiful women – mulheres grandes e lindas), porque elas são do tipo “que te chupam vivo e ainda comem um almoço com você”. A melhor coisa que chegamos perto de ver lançando uma luz positiva por um artista popular e que ainda acha um jeito de tirar onda com a gente. Obrigada, Drake.

Eu acho que vamos ter que aceitar, considerando que as pessoas raramente chegam perto de dizer algo parecido com isso. É estranho como ainda é tabu, considerando o fato de que em certo ponto, na história cultural do mundo Ocidental, as mulheres gordas não eram consideradas nem um pouquinho repulsivas.

Pesquisadoras de Sociologia, Samantha Kwan e Jennifer Fackler, da Universidade de Houston criaram uma breve história de como os ideias de corpo mudaram ao longo dos séculos em um informativo chamado “Mulheres e Tamanhos”. De acordo com as sociólogas, até por volta do século XIX, as mulheres eram retratadas em pinturas por artistas como Ruben e Renoir como “carnudas” e “voluptuosas” (palavras deles, não minhas). Pessoalmente, os dois pintores me fazem querer vomitar porque eles soam como algo que saiu de um romance erótico horrível (mesmo motivo pelo qual não suporto ouvir as palavras “calçolas” e “latejando”). Independente disso, corpos mais magros só se tornaram desejáveis uma vez que o marketing de massas na moda começou a tomar espaço assim como o marketing de dietas.

Pintura de Renoir mostra uma ruivaça - e ela não é magra


Foi por volta dessa época que os tamanhos dos vestidos começaram a ser tornar padrão e houve a descoberta da caloria que, de repente, forçou o controle do peso entrar na consciência do público de acordo com a gastrônoma Sarah Lohman. Em outras palavras, dietas viraram produtos vendáveis e suscetíveis ao marketing. Nos anos 20, “a maioria das mulheres norte-americanas ou estavam de dieta ou se sentindo culpadas por não estarem em uma. E o resto é história”. Nossa completa percepção de beleza em relação à magreza é essencialmente incitada por pessoas, ao longo da história, que procuram se beneficiar da nossa autoestima e a gente cai nos truques. Nós caímos feio.

“Nós somos vítimas de uma comunicação terrível”, diz Ken Page, psicoterapeuta e autor do livro Deeper Dating: Como derrubar os jogos de sedução e Descobrir o poder da Intimidade. "O aprendizado que obtemos de como a atração funciona, o jeito que nós devemos aparentar e agir, é como se fosse escrito por um grupo de adolescentes ansiosos. É perigoso, mal guiado e, na sua maioria, sem base científica”.

Portanto, a atração tem muito menos a ver com aparência do que a gente imagina. De acordo com a ciência, uma grande parte da atração sexual ferve no quanto a gente cheira a fertilidade, em características de personalidade como bondade e inteligência, e algo que a Page chama de “atração emocional”, que, basicamente, é como você “se liga” no outro.  "Pensar que você, por ser de determinado formato ou peso, não irá atrair as pessoas simplesmente não é verdade”.

Se é assim que a atração funciona, de acordo com a ciência, então porque eu não vejo isso acontecendo na vida real? Porque minha sufocante mãe judia me pressiona constantemente para que eu perca peso para que eu possa me casar com um dentista judeu? Porque estranhos na internet repetem constantemente que perder peso vai me ajudar a, finalmente, encontrar o amor?

Eu sei que isso não é verdade. Eu tenho inúmeras amigas que se encaixam no estereótipo de “mina gostosa” (afinal, eu moro em Los Angeles – tem praticamente uma infestação de “minas gostosas”). Eu aprendi com minhas amizades com mulheres altas, magras e obsessivas por beleza que suas vidas românticas são tão merda quanto a minha. Magras ou gordas, nós estamos no mesmo barco quando se trata de sermos traídas, receber mensagens horrorosas do tipo “você é muito legal, mas o negócio é que...” A diferença é que, quando isso acontece, minhas amigas magras não culpam sua gordura automaticamente por isso. Então, porque eu sou levada a pensar constantemente que meu peso é o problema da minha vida amorosa?

Sentir vergonha de ser gorda é algo que eu conheço muito bem – mas como Tovar explicou, o jeito que eu processei minha vergonha é diferente de como os homens com os quais eu dormi processaram as vergonhas deles. “Quando as mulheres sentem vergonha, nós somos ensinadas a levar essa vergonha para dentro, para nós mesmas”, disse Tovar. “Os homens, geralmente, conseguem manobrar parte dessa vergonha para fora deles mesmos. Enquanto isso as mulheres têm mais tendência de absorver tudo – não só a vergonha que elas já sentem, provavelmente, por serem gordas, mas também vergonha porque elas estão causando aquele desconforto para os seus parceiros”

O melhor exemplo disso são as mulheres que se sentem desconfortáveis ao exporem seus corpos durante o sexo, até quando seus parceiros românticos já expressaram sua atração por elas pelo jeito de quererem rasgar suas roupas fora. Como se dissessem “Eu tenho vergonha porque talvez você sinta vergonha do meu corpo”.

Para que a vergonha ocorra a esse nível, as mulheres – e não só as mulheres gordas – precisam aceitar seus corpos como eles são. Não só por nós mesmas, mas para que nossos parceiros sintam menos vergonha, também. Como a Page explicou, as partes de nós das quais sentimos mais vergonha são bem prováveis de serem as partes com as quais nossos parceiros ficam mais excitados.

Ashley Graham é uma das divas modernas. E não é padrão.


É claro que isso é mais fácil na teoria. É extremamente difícil não se sentir envergonhada com o que nós ouvimos o tempo todo dizerem que é uma imperfeição. Para ajudar a terminar com nossa insegurança, os homens poderiam ser melhores ao expressar o seu desejo por nós – não só entre quatro paredes, mas pro mundo todo também. Tentem criar uma letra de rap sobre nós e que não fale de comida. Isso seria legal.

Para você, homem heterossexual que ainda não consegue expressar para o mundo que nós, gordinhas, somos capazes de sermos tão atraentes como mulheres magras, faça a si mesmo uma pergunta: Porque eu não consigo dizer isso? Do que você tem medo de verdade? Da reação dos seus amigos? Que amigos são esses que não querem que você seja feliz?

No final das contas as mulheres gordas estão de saco cheio de serem tratadas como aberrações e os homens que se sentem atraídos pela gente estão de saco cheio de serem tratados como depravados. Atração existe em um espectro e já está na hora desse espectro se mostrar por inteiro – com gordurinhas e tudo o mais.



Tradução do artigo da Vice por Alison Stevenson. 

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