A perfeita ilusão de que eu entendia Lady Gaga

“I’ve got a hundred million reasons to walk away... but, baby, I just need one, good one, to stay”. 



Essa frase resumiu meus sentimentos em relação a Joanne, ou melhor, a Lady Gaga este ano. Foi diferente, foi exótico, foi fora da caixinha que eu a tinha colocado, foi tudo menos o que eu esperava.

Mas, assim como todas as letras compostas neste álbum parecem falar por ela e pelos fãs ao mesmo tempo, eu não consegui fugir do envolvimento quase místico que rolou ao redor de ‘Joanne’.

Se antes eu tinha dúvida, agora não tenho mais: Lady Gaga não é boa porque dança bem – é até meio desajeitadinha – não é boa porque tem singles maravilhosos, não é boa porque canta bem – canta demais até – e não é boa, acima de tudo, pela personalidade que ela tem. Não é por nada nisso.

Ela é boa porque ela é, sem clichês e eufemismos, verdadeira. Genuína.



Quando ela dança – estranha – ela não quer bancar o Justin Timberlake que quer porque quer ser o dançarino do século XXI, continuação de Michael Jackson (e não é MESMO). Ela dança como quem dança na sala, de frente pra tevê, tentando imitar uma coreô profissional. E não esconde isso.



Quando ela canta – divinamente bem HOJE – ela treina, sua, passa horas no estúdio aperfeiçoando suas técnicas para matar no show. Como ela mesma já disse inúmeras vezes: “eu não vou fazer vocês pagarem para ver uma vadia fingir que canta no palco” (hum-hum, Britney, hum-hum).



Quando ela faz uma performance ou pensa num look exótico, ela faz porque tem vontade de fazer mesmo. Não importa o quão bizarro pareça. Para muitos, isso já era muito claro. Mas, por favor, para pra pensar, se você ficasse famoso hoje, você teria coragem de se assumir daquela maneira na transição ‘The Fame/The Fame Monster’, arriscando tudo – fãs, dinheiro, carreira – só para virar piada no ‘Fashion Police’? Acho que não. Eu mesma, não.



E, quando ela faz um álbum... bem, não vou dizer que ela não pensa nos fãs. Ela pensa. Mas, de um jeito diferente. Não pensa exatamente em como vai soar. Mas, no que vai dizer. Pode ser um pop chiclete (bem feito), pode ser um exoticão, pode ser um house louco e pode ser... country, porque não?

Ah, a liberdade artística....

Eu não preciso explicar muito o ponto de vista da Gaga em relação às suas mudanças. Ela mesma já falou nesta entrevista abaixo que, detalhe, vale super a pena assistir, inclusive como apreciador de música, artista, produtor, etc.



Tá. Ela já explicou o ponto de vista dela. Mas, agora vai o nosso. Ou melhor, o meu.
Infelizmente, Gaga, pra nossa desgraça, nós colocamos as pessoas em caixas. Ivete Sangalo canta axé, Racionais faz rap, Adele músicas para chorar e Britney músicas super produzidas para esconder sua falta de talento (rsrs, eu até gosto de algumas músicas, parem).

Nossa sociedade pós-moderna, capitalista e mente fechada nos fez assim.

‘We were born this way, baby’.



Não há muito o que fazer. Quer dizer, há.

Só que leva tempo. Por exemplo, este álbum foi lançado em 21 de Outubro (um pouco antes para quem é das máfias virtuais). Só agora, em dezembro, consigo escrever algo sobre ele.

Como eu já disse mais acima, o poder desse álbum – e da Gaga em geral – é o seu poder em ser genuína como ninguém. Ninguém consegue ser tão verdadeira no showbiz quanto ela. Sério. Sempre tem uma fagulhazinha de falsidade em algum momento. Você não vai ver fagulha nenhuma de falsidade nela. Pelo contrário, você vai ver um fogaréu de verdade na cara.

Então, se ela nos diz que “it wasn’t love, it was a perfect illusion” a gente vai acreditar nisso piamente. Não é porque ela grita isso com tanta raiva e frustração que você sente do outro lado do som. Também. Mas, sim, porque ela vende a ideia perfeitamente porque ela está realmente querendo dizer aquilo.

Aliás, vamos parar por favor, para analisar essas letras, que são os verdadeiros presentes para todos que ouvem suas obras.

Esse álbum Joanne é uma perfeita ilusão mesmo. Sabe porque? Porque você ouve a letra uma, duas, três e até mais vezes e pensa que ela significa uma coisa. Aí, tipo, meses depois, você consegue ver outro significado totalmente diferente das mesmas sentenças.



Todo mundo começou a ouvir o álbum pensando que ela estava jogando suas frustrações amorosas (assim como Adele, porque não?) do seu término com o noivo Taylor Kinney em quase todas as letras. ‘Perfect Illusion’, ‘Million Reasons’, ‘John Wayne’, etc. Só que vieram os clipes. As explicações. As reflexões. E, cara... quanto espaço para composições tão simples.

É como se um quadro com um ponto no meio e o restante de espaço vazio, em branco, te causasse mil interpretações. É aí que tá a genialidade das coisas, não? Estou errada? Porque eu acho que, pela lógica, algo complexo está mais passível de interpretações diversas – justamente por causa da complexidade.

Mas acho que o simples, mas que foi arquitetado e estruturado para causar variáveis é algo ainda mais valioso. Até porque isso é difícil pra cacete. Eu acho. Posso estar errada, porque não sou especialista em arte. O pouco que li veio da indústria cultural que não é bem uma referência de análise em arte (completamente o oposto).

Exemplo: eu comecei a ouvir ‘Million Reasons’ relacionando o ‘you’ a Kinney. Óbvio. Maioria fez isso. Depois, eu comecei a pensar nos fãs. Porque, vejam bem, a gente se dizia devotos da Mother Monster e aí, quando ela resolve mudar ou fazer algo diferente, somos os primeiros a criticá-la online. Tudo bem.

Mas aí, veio o clipe.

A minha – repito, minha – interpretação, no momento, é: o ‘you’ é a antiga Gaga. Antes da fama. A Joanne Angelina Germanotta mesmo. A que acreditava em ser uma superstar sem perder a essência. A que tinha fé. A católica criada na família que só a acolheu desde o início, antes que se rebelasse e fosse para o centro de NYC com mil perucas e o desejo de escandalizar. A que tem valores familiares e a que aprecia boa música e quer fazer boa música – simples e boa.

As ‘million reasons to walk away’ representam (ou representariam, talvez) as vantagens e privilégios de ser quem ela foi até agora no showbiz. Ela se tornou o verbo encarnado da frase “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

No clipe, vemos esse ‘abrir de olhos’. Vemos um presentinho que todos nós – que acreditávamos no antigo significado ‘Kinney’ da música – era do ex-noivo. E aí, BAM!, é da irmã. E o presente não poderia ser maior “good one to stay”. Stay herself. Continuar sendo ela mesma. Sem desviar das raízes e tudo que a formou.



Tá, isso pode ser clichê. Chame do que quiser. Mas eu achei genial. Lembra do simples/brilhante? É difícil fazer isso hoje em dia. As coisas são mastigadas. Tudo é o que é mesmo. Não tem muitas camadas por trás.

Lembre-se que essa análise que eu fiz é SUPER passível de erros e de outras interpretações. E, gente, isso é muito legal.

‘Joanne’ inteiro é assim. De ‘Diamond Heart’ a ‘Just Another Day’. Cheio de caminhos, de desvios, de possíveis e prováveis. E isso é o que torna o álbum tão especial.

Não, ainda não é meu favorito de Gaga, nem acho que vá ser um dia. ‘Born This Way’ teve um impacto em mim que não é fácil superar. Mas, o que posso dizer de ‘Joanne’ é simples (e não tão genial assim): ouça.



OBS.: Recuso-me a discursar sobre a produção musical do álbum. Os caras responsáveis pela composição do álbum junto a Gaga tem tanto curriculum vitae quanto se trata de música que colocam muitos no chinelo. Aí você, espertalhãozinho da música vem falar abobrinha, eu acrescento: Queens of The Stone Age, Beck, Tame Impala, Amy Winehouse. Todos esses artistas têm algo em comum com ‘Joanne’: os artistas envolvidos. Não entendeu? Google depois a gente conversa. E não julga mais a pop music, ô! O artista que você ama pode estar colaborando com o pop e vocês nem sabem. Só depende da genialidade da artista pop. E, neste caso, não tem perfeita ilusão. É fato mesmo.  


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